“(…) a mão de Deus, como outrora sobre a cidade maldita de Sodoma, no dia 1º de novembro de 1755, pesou também com toda a sua força sobre a capital do reino fidelíssimo. Lisboa ia a seu turno experimentar a cólera divina. E não eram poucos seus pecados, amaldiçoada por milhares de vítimas, que sua ambição insaciável tinha lançado no cativeiro, e por povos numerosos que dominava com jugo de ferro. Um medonho terremoto abalou toda a cidade, e os magníficos palácios dos grandes, construídos e enriquecidos à custa do suor e sangue das colônias, desciam e confundiam suas cinzas com as dos miseráveis casebres, formando montões de ruínas por cima de cadáveres calcinados.”

Joaquim Felício dos Santos sobre terremoto que destruiu Lisboa e matou mais de 10 mil pessoas

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 97

“‘Meus amigos, disse ele, é a primeira vez em minha vida que isto me acontece; eu pressagio alguma grande desgraça que está para suceder-me.’ E com efeito, a estrela do homem, que havia sido sempre feliz, com ele, ia em breve empalidecer.”

Joaquim Felício dos Santos sobre fala de Felisberto Caldeira Brant, terceiro contratador de diamantes que foi preso e teve todos os seus bens confiscados. A família Caldeira Brant até hoje pede indenização à Portugal.

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 94

“(…) gloriamo-nos de que neste canto do Brasil se manifestasse o primeiro pensamento de emancipação. E era natural, e tínhamos sobeja razão; de todos os povos da Colônia fomos o mais vexado e oprimido pela Metrópole. Logo veremos que não ficamos estranhos à tentativa de emancipação de 1789, e que o Tijuco também contribuiu com suas vítimas.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 92

“Um dos mais graves e sérios estudos do tempo era o da denominada política ou civilidade, isto é, da maneira por que cada um devia em público regular o seu comportamento. Para este estudo havia mestres, mestres de nomeada, mestres que se mandava vir de longe, com grandes dispêndios e pingues ordenados. Escreviam-se tratados longos, que se imprimiam e nitidamente se encadernavam, sobre a matéria que era inesgotável; neles se discutiam questões que tinham a aparência da maior gravidade e importância, e sobre que divergiam com grande perigo da etiqueta, as opiniões dos mais abalizados autores e práticos. Por exemplo, era questão grave entre eles – e não nos consta que até hoje tenha sido decidida de maneira satisfatória – se o cavalheiro em um jantar devia sentar-se à mesa com o espadim, ou se deveria tirá-lo. Em uma sociedade a menor discrepância das regras do ritual, ou inobservância das etiquetas burlescas e ridículas, que se era obrigado a observar, constituía grava crime de lesa-civilidade, e o delinquente era apontado a dedo como homem grosseiro e falto de educação.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 85

“Notável alteração sofreram os costumes de um povo, isolado neste canto do Brasil. Procurou-se imitar à risca os usos e modas da metrópole, que também por sua parte procurava imitar o que via na França. Usavam os homens trazer cabeleiras trançadas em forma de rabicho, entrelaçadas com um cadarço de gorgorão, arrematando na extremidade por uma laçada; chapéu à Frederico, de três pancadas; camisas de folhos com colarinho baixo; gravata de lenço branco bordado; colete de cetim macau, bordado de lentejoulas e comprido em forma de fraque, com abotoadura de pedras; casaca de veludo de diversas cores, degolada, comprida, sem enflanque, com portinholas e canhões largos e dobrados; calção largo de seda ou veludo, apertado com fivela de ouro por cima de meias de seda pérola; sapatos pretos pontiagudos com fivelas de cravação de pedras (está entendido que não falamos de diamantes); bastão grosso, de castão e ponta de ouro; relógio com cadeia de cornalina; rico florete de bainha de ouro e guarnição em forma de um – S -: daqui dizemos ainda hoje: os tempos das adagas de gancho.

As senhoras traziam na cabeça uma coifa de seda branca presa ao cabelo com alfinetes e borla de fio de ouro na extremidade; camisa de folhos apertada ao pescoço; espartilho de barbatanas, sobre o qual vestiam um macaquinho de veludo, com rica abotoadura e flores de pedras pendentes sobre o peito; grosso afogador e pesados brincos de pedraria encastoada; saia de imensa roda com longa cauda, que trançavam no braço; sapatos de bico agudo levemente voltados para cima, com altos saltos de madeira; bastão fino; traziam os dedos das mãos quase inteiramente cobertos de anéis de ouro. Em casa usavam de um folgado timão, apertado adiante e apanhado por uma cinta de seda com borlas pendentes. Não nos esqueçamos do polvilho, feito de trigo macerado, ou goma de mandioca, com que empoavam os cabelos. Quem se achasse em uma das reuniões daquele tempo, julgar-se-ia no meio de um respeitável senado.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Páginas: 84 a 85

“Eu El-Rei faço saber aos que este alvará virem, que sendo-me presentes os insultos, que no Brasil commettem os escravos fugidos, a que vulgarmente chamão calhambotas (sic) passando a fazer o excesso de se juntarem em quilombos; e sendo preciso acudir com remédios que evitem esta desordem: – hei por bem que a todos os negros, que forem achados em quilombos, estando n’elles voluntariamente, se lhes ponha com fogo uma marca em uma espadoa com a letra – F -, que para este effeito haverá nas camaras: e se quando se fôr executar esta pena, fôr achado já com a mesma marca, se lhe cortará uma orelha, tudo por simples mandado do juiz de fora, ou ordinário da terra ou do ouvidor da comarca, sem processo algum e só pela notoriedade do facto, logo que do quilombo fôr trazido, antes de entrar para a cadêa.”

Dom João V – Alvará de 3 de março de 1741

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 80

“Uma das principais causas que motivaram o bando de 9 de julho de 1734, de que já falamos, proibindo a mineração de diamantes na demarcação, foi a grande abundância deste gênero, que enfartara o mercado de Lisboa nos anos anteriores: razão por que no mesmo bando se proíbe fazerem-se novos descobertos, cumprindo dar-se parte ao intendente dos que se fizessem casualmente, para providenciar a respeito. A abundância tendia a diminuir-lhes o valor, e procurava-se encarecê-los. Ideias erradas do tempo (…).”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 78

“Em consequência da favorável exposição da descoberta de diamantes do Serro Frio, foram estes procurados com maior avidez. Fizeram-se extensas especulações e chegaram à Europa em tal abundância, que se receou seriam muito depreciados. Para evitar isto espalhou-se de propósito o boato que os diamantes do Brasil eram decididamente inferiores aos orientais. Outros interessados no seu comércio negavam que fossem da América, e declaravam que eram o refugo das minas da Índia, enviados do Indostão a Goa e dali transmitidos ao Rio de Janeiro. Estas informações falsas excitaram na Europa um grande prejuízo contra os diamantes do Brasil; caíram logo nas mãos de poucas pessoas, que sabiam melhor manejar o negócio, as quais antevendo que o Governo não podia ficar indiferente, compraram todos os que lhe ofereceram, e tomaram o engenhoso expediente de ocultamente transmitirem os diamantes brasileiros a Goa, e daí a Bengala, onde eram batizados como legítimos diamantes orientais, comprados a altos preços e transmitidos à Inglaterra, onde se espalhavam pela Europa. Eram em toda a parte recebidos pelos consignatários manufatureiros de brilhantes como genuínos diamantes orientais. Trazidos assim a uma competência manifesta, achou-se que eram em nada inferiores às mais belas pedras de Golconda. O primeiro prejuízo foi logo abandonado pelo comércio, mas fez uma notável impressão nas pessoas pouco conhecedoras do diamante. Pode-se com verdade afirmar que a Europa depende quase que inteiramente do Brasil para o suprimento dos diamantes.”

João Mawe – Tratado dos Diamantes e Pedras Preciosas, 1807

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 78

“Por bando de 1 de março de 1743 foi proibido ‘as negras ou mulatas fôrras ou captivas, andarem com taboleiros pelas ruas ou lavras, só lhes sendo permittido venderem os gêneros comestíveis nos arraiaes e nos lugares que pra esse fim lhes forem marcados, sob pena de duzentos açoutes e quinze dias de prisão. No Arraial do Tijuco o Intendente designou a rua, que por essa razão foi chamada de Quitanda, denominação que até hoje ainda se conserva. Só aí é que se podia fazer o pequeno mercado das quitandeiras.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 77

“As autoridades consideravam os advogados como perturbadores da ordem da justiça. Queriam uma justiça rápida, expedita, sem formalidades. Os advogados, naturalmente formalistas, obstavam o livre curso da arbitrariedade: daí provinha o desafeto, que lhes votavam os julgadores. Em breve veremos ordenar-se que sejam exterminados do Distrito, e, sob penas rigorosas, proibido o exercício da advocacia.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 74

🔖 Leia outra citação que aborda o mesmo tema:

“Para melhor execução desta resolução o Governador mandou publicar o bando de 7 de abril de 1734, impondo penas severas aos contraventores. Toda pessoa que, depois de expirado o prazo de seis meses, fosse encontrada com moeda proibida ou deixasse de pagar o quinto, ou concorresse por qualquer modo para a saída do ouro em pó para fora da capitania, ficava incursa nas penas do confisco de todos os bens e de degredo por dez anos para a Índia. Quem somente tivesse notícia de algum destes crimes, e o não denunciasse à autoridade para ser punido, ficava sujeito à pena de extermínio da capitania por toda a vida, além de outras penas, que lhe poderiam ser impostas a arbítrio do Governador, conforme o caso. Deviam igualmente ser exterminados aqueles indivíduos contra quem só houvesse suspeitas. Todo delator, em virtude de cujas denúncias se fizessem confiscos até a importância de duas arrobas de ouro, ainda que por parcelas, obteria certidões, ‘para que, diz o bando, possa requerer a Sua Magestade todas as honras e mercês, que o dito Senhor costuma fazer a quem o serve com zelo e fidelidade, e preferência para todos os cargos, officios e occupações honorificas, além da parte que lhe pertencer no ouro confiscado’. Ainda copiaremos textualmente a última parte do bando: ‘E qualquer escravo que denunciar a seu senhor e por virtude da dita denunciação fôr confiscado, ficará forro e se lhe passará carta de alforria em nome de Sua Magestade, e se lhe dará a terça parte do dito confisco’.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 66

“Devendo-se attender mais, que a nenhuma outra cousa, a evitar pelos meios possíveis as offensas a Deos e com especialidade os pecados públicos, que com tanta soltura correm desenfreadamente no Arraial do Tejuco, pelo grande número de mulheres deshonestas, que habitão no mesmo arraial com vida tão dissoluta e escandalosa, que não se contentando de andarem com cadeiras e serpentinas acompanhadas de escravos, se atrevem irreverentes a entrar na casa de Deos com vestidos ricos e pomposos, e totalmente alheios e impróprios de sua condição; – E não se podendo dissimular por todas as leis divinas e humanas, sem um grave escrúpulo de consciência dos que governão, o castigo de gente tão abominável, que se deve reputar como contagio dos povos, e estrago dos bons costumes; – Mando que toda a mulher de qualquer estado e condição que seja, que viver escandalosamente, seja notificada, para que em oito dias saia para fora de toda a comarca do Serro Frio; e quando o não execute no dito termo, será presa e confiscada em tudo quanto se lhe achar; e toda aquella pessoa, que por si o por outrem, com conselho, com obra, ou com diligência alguma, intentar impedir o que determino n’este bando, incorrerá na mesma pena e se remetterá presa para esta villa.”

Transcrição de 2 de dezembro de 1733  

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 56

“Era costume dos antigos levantarem um pelourinho, quando se fixavam em qualquer parte com intenção de fundar um arraial. Pelourinho é uma picota, que se levanta em lugar bem público, com argola de ferro presa no alto, onde se amarram os escravos para serem surrados. Desgraçadamente em muitas de nossas vilas e cidades ainda se ostenta em público esse sinal de barbaria da atualidade.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 42

“A atmosfera muito especial de Ouro Preto, que, mesmo ainda sede do Governo, respira o clima melancólico de grandeza decaída, convidava a reconquista imaginária dos períodos de fausto.”

Alexandre Eulálio – São Paulo, novembro 1975 / fevereiro 1976 

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 21

“A brasa dormida dos diamantes – cinza da árvore sagrada -, fará arder sempre as mãos daqueles que se atirarem com voracidade sobre o seu cintilar.”

Alexandre Eulálio – São Paulo, novembro 1975 / fevereiro 1976 

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 18

“Símbolo arquétipo da comunhão de céu e terra, a grande árvore, afundada nas raízes e tocando o céu com as frondes (…).”

Alexandre Eulálio – São Paulo, novembro 1975 / fevereiro 1976 

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 18

“A Maçonaria – era uma sociedade organizada sobre princípios diferentes da sociedade civil; sua base era a igualdade dos homens; um de seus principais dogmas era a filantropia; a Maçonaria, informa Felício dos Santos, dirigiu a Inconfidência em Minas; ‘Tiradentes e quase todos os conjurados eram pedreiros-livres’.”

Mário Guimarães Ferri – São Paulo, 6 de março de 1976 

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 10

“Não há mineiro que ignore a história da nossa gloriosa tentativa de independência de 1789.”

Joaquim Felício dos Santos 

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Páginas: 9 e 165 a 166

“A desigualdade era o preço da civilização.”

George Orwell

Livro: 1984 (Companhia Editora Nacional, 2004 – Data da primeira publicação: 1949) | Autor: George Orwell | Página: 196

“Nesse dia eu escrevi pelo que era grato. Quase imediatamente, senti a depressão – que como uma névoa pesada pairava sobre mim – diminuir. Ela não acabou, mas eu me senti mais leve. O simples ato de escrever as coisas pelas quais era grato melhorou meu humor. Eu me sentia grato.”

Hal Elrod 

Livro: O milagre da manhã: o segredo para transformar sua vida (antes das 8 horas) (Best Seller, 2024 – Primeira publicação em 2012) | Autor: Hal Elrod | Página: 54