“Vimos por estes dias os horrores da morte civil, bem comparáveis com os da morte natural: os prantos retumbavam nas casas destes desgraçados, os parentes e amigos concorriam de todas as partes para suas últimas despedidas: a aflição, a consternação e a palidez da morte se mostravão nos rostos destas victimas inocentes; uns desmaiarão ao ouvir a intimação das suas sentenças, outros chamavam o Ceu por testemunha de tanta crueldade e de tanta injustiça.”

Trecho de um segundo documento do povo do Tijuco a Dona Maria I, Rainha de Portugal em 1799

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 314

“Representamos e expomos em terceiro lugar o § 15 da mesma lei que dá o fatal poder ao Intendente dos diamantes de nos punir com a pena de morte civil, sem sermos ouvidos, sem appellação, agravo, ou recurso algum.”

Trecho de documento do povo do Tijuco contra o governo de João Inácio e fiscal João da Cunha, a Dona Maria I, Rainha de Portugal em 1799

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 311

“A história dos tempos coloniais do desgraçado povo que habita este torrão diamantino, sujeito à autoridade com poder absoluto, e regido por leis peculiares, por assim dizer, uma colônia particular, isolada no imenso território do Brasil, não deixará de ser interessante a todo brasileiro. Foi esta população, por isso mesmo que existia em um solo rico, a que mais suportou os vexames e exacções do governo da Metrópole, de ambição insaciável, que só procurou tirar todo proveito de nosso país, pouco lhe importando sua prosperidade se não era para enriquecer o Erário Régio.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 304

“A operação de lavagem, principalmente em cascalho pobre, é a mais fastidiosa da mineração; por isso alguns mineiros proíbem que os escravos cantem na lavadeira. A monotonia dos cantos africanos produz tal sonolência que os vigias caem dominados pelo sono. Dormindo os vigias, é a ocasião azada para o extravio dos diamantes.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 298 – Nota de Rodapé

“Chegaram muito boas notícias pelo correio de 6 do corrente; porém a imagem horrível da morte, que nos assusta e arrodeia, não permite que as aplaudamos com aquele entusiasmo patriótico, que sempre nos animava. Deixemos tão grande fortuna para as regiões mais felizes de nossa querida pátria, que enquanto ao Serro só é dado hoje conhecer que os bens deste mundo são todos transitórios e momentâneos, e que a um leve aceno do Onipotente tudo sucumbe e se aniquila. Deixemos que povos mais felizes do que nós se dêem parabéns pelo completo triunfo da causa da Nação; nós só podemos por pouco tempo acompanhar seus hinos de satisfação, uma vez que nossos corpos, já mirrados pela fome, em breve serão alimento das aves de rapina pelas ruas e praças públicas.”

Número 82 do jornal Diamantino, sobre o período de fome pelo qual passou a vila devido a irregularidade das chuvas em 1832 e a sua falta absoluta em 1833.

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 288

Picuá é uma pequena peça oca, cilíndrica, de chifre ou de qualquer outra matéria, em que os mineiros costumam guardar os diamantes que extraem.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 282 – Nota de Rodapé

“Em 1823 introduziu na Província da Bahia uma porção de raiz de araruta (Maranta indica). A cultura desta raiz tornou-se tão próspera em algumas vilas do Recôncavo, que constitui hoje um ramo de exportação, além de grande porção de fécula, que se consome na província.”

Joaquim Felício dos Santos sobre algumas plantas exóticas que Manoel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá introduziu em sua fazenda na Bahia

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 280

“Não quiseram a união, regeitão-nos como irmãos, verão a separação, ter-nos-hão como inimigos.”

Manoel Ferreira da Câmara Bittencourt e Sá em resposta a Corte Portuguesa que queria ver novamente o Brasil, já elevado a reino, reduzido novamente a Colônia.

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 278

“Na mesma ocasião o Conselho determinou a demolição do padrão de infâmia levantado em Vila Rica há trinta anos em opróbio ao Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, que fora executado em 1792, como chefe da Conjuração Mineira. Ninguém ignora essa história. Na sentença proferida contra o ilustre condenado se mandava que ele fosse enforcado e depois esquartejado; seus quartos levados aos lugares em que os conjurados se reuniam para seus trabalhos clandestinos; sua cabeça levada à Vila Rica, e exposta em um alto poste no lugar mais público da vila; arrasada a casa em que morava na mesma vila e o solo salgado, para que nele não mais se edificasse, e que aí se levantasse um padrão de infâmia com uma inscrição, que perpetuasse o crime e o castigo. Seus filhos e netos foram declarados infames, e despojados de todas as honras cívicas, e esbulhados de todos os seus bens.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 275

“Mas nesses homens dos primeiros tempos sobejava o patriotismo. (…) Fariam mais se o exigisse o bem da Pátria. Era belo esse tempo de virtudes cívicas.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 273

“Mas eram belos esses tempos: os povos confraternizavam, as inimizades se esqueciam, as rivalidades se desvaneciam; porque unia-os uma causa, um interesse em comum; dominava-os um único amor, o da liberdade; animava-os um só espírito, o patriotismo.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 267

“Desconfiava-se do Intendente, desconfiava-se dos absolutistas, desconfiava-se da revolução; desconfiava-se de tudo. Era natural. Quando despertamos de um sonho aflitivo, ainda duvidamos nos primeiros momentos da realidade dos objetos que encontramos ante os olhos: são momentos de transição, de incerteza.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 265

“São belos os primeiros momentos em que um povo se desperta do letargo da escravidão.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 265

“(…) convencei-vos da verdade que vos vou dizer: – que é muito melhor, muito preferível ser governado por uma lei má, do que ter nenhuma.”

Manual Ferreira da Câmara Bittencourt Aguiar e Sá, Intendente do Tijuco, em 18 de maio de 1821 em uma carta ao povo de Diamantina após a promulgação da Constituição Portuguesa, que aboliu o Regimento Diamantino do qual ele era o principal representante. O Regimento Diamantino possuía poder absolutista.

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 259

“O povo, vendo-se senhor do campo, trata a seu turno de tirar uma desforra. Deviam-se esperar excessos, que sempre acompanham as comoções populares. É natural: aberto o dique é difícil fazer parar a torrente. (…) Houve um sussurro surdo, depois o tumulto foi serenado. Verdadeira ou falsa, esta notícia livrou o povo, que quase sempre é exagerado em tais ocasiões, de praticar um ato de que talvez tivesse depois de envergonhar-se.”

Joaquim Felício dos Santos sobre agitação no Tijuco devido a Revolução constitucional do Porto que repercutiu em todo o Brasil.

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 251

“… Em toda a Província de Minas encontrei homens de costumes dóceis, cheios de benevolência e hospitalidade; (…).”

Saint-Hilaire, naturalista francês, descrevendo sua viagem ao Distrito Diamantino em 1817

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 246

“Em toda associação quase sempre aparece um judas.”

Joaquim Felício dos Santos sobre a traição do famoso escravo e garimpeiro Isidoro que foi entregue por um de seus comparsas, em 1809, no Tijuco. Preso, interrogado e torturado até a morte, Isidoro não entregou nenhum de seus contatos ou companheiros.

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 241

“Esta lei mandou por em execução a constituição apostólica de Benedito XIV de 20 de dezembro de 1741, que proibia escravizarem-se os índios do Brasil, coibindo muitos abusos que havia a este respeito, sob graves penas espirituais; e tornou geral a todo o Brasil a disposição dos alvarás de 6 e 7 de julho de 1776, que haviam estabelecido, sem restrições, a liberdade das pessoas e bens dos índios do Pará e Maranhão, dando providências para a sua civilização e catequese, e animando-os a entregarem-se ao comércio e à agricultura.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 237 (Nota de Rodapé)

“D. João VI foi um excelente homem. Gostava de ouvir e fazia muitas perguntas às pessoas que o iam ver. Recebeu Câmara com a maior amabilidade, como era seu costume; interrogou-o minuciosamente sobre todos os negócios do Tijuco e até sobre a maneira como eram alimentados os escravos.”

Joaquim Felício dos Santos sobre encontro de Câmara, intendente do Tijuco com o Rei Dom. João VI, no Rio de Janeiro, em 1816

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 231