“De fato, chamaram Bem a tudo que conduz à boa saúde e ao culto de Deus, e Mal, por outro lado, ao que é contrário a isso. E como esses que não entendem a natureza das coisas nada afirmam sobre elas, mas apenas as imaginam e tomam a imaginação pelo intelecto, por isso creem firmemente, ignorantes que são da natureza das coisas e da sua própria, haver ordem nas coisas. (…) Em seguida, as noções restantes também nada são além de modos de imaginar, pelos quais a imaginação é afetada de diversas maneiras, e não obstante são consideradas pelos ignorantes como os principais atributos das coisas porque, como já dissemos, creem que todas as coisas são feitas em vista deles próprios e dizem que a natureza de algo é boa ou má, sã ou podre e corrompida, conforme são afetados por ela. Por exemplo, se o movimento que os nervos recebem dos objetos representados pelos olhos conduz à boa saúde, os objetos pelos quais é causado são ditos belos, ao passo que os que provocam movimento contrário, feios. Em seguida, aos que movem o sentido pelas narinas, chamam cheirosos ou fétidos; (…). Tudo isso mostra suficientemente que cada um julgou acerca das coisas conforme a disposição do seu cérebro, ou melhor, tomou por coisas as afecções da imaginação. Por isso não é de admirar (…) que tenham nascido entre os homens todas as controvérsias de que temos experiência, dentre as quais finalmente o Ceticismo. Pois embora os corpos humanos convenham em muitas coisas, discrepam contudo em várias, e por isso o que a um parece bom, a outro parece mau; o que a um parece ordenado, a outro, confuso; o que a um é agradável, a outro, desagradável; e assim do restante, (…). Com efeito, está na boca de todos: cada cabeça uma sentença, cada qual abunda em opiniões, não há menos diferença entre cérebros do que entre gostos: estas sentenças mostram suficientemente que os homens julgam sobre as coisas conforme a disposição do seu cérebro, e que as imaginam mais do que as entendem.”
Benedictus de Spinoza
Livro: Ética – Spinoza (Editora da Universidade de São Paulo, 2021 – Publicado originalmente em 1677) | Autor: Benedictus de Spinoza | Página: 117 a 121
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