“Um comportamento que dicotomiza a figura feminina: ou é santa ou é prostituta. De qualquer forma, é interessante como a recusa de sexualizar a mulher se contrapõe, a todo instante, à tendência a sexualizá-la de forma perversa. Veja, por exemplo, o uso simples dos adjetivos honesto e sério. O que entendemos por ‘homem honesto’ ou ‘sério’ é muito diferente do que queremos dizer com ‘mulher honesta’ ou ‘séria’. Um homem indignado pode ter o seu comportamento analisado de diversas formas. Idêntico comportamento na mulher gera explicações referentes à suposta ‘precariedade’ da sua vida sexual. De um homem, no seu serviço, exige-se competência; de uma mulher, que também seja bonita e charmosa.

A própria mulher tem em si mesma esse tecido ambíguo da exposição e da negação da sexualidade. É ensinada desde cedo a ser vaidosa, insinuante. Mas deve ir até certo ponto, no limite da decência (?!).”

Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires

Livro: Filosofando: Introdução à filosofia (Moderna, 1986) | Autoras: Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins | Página: 363

“Na família burguês vão se tecendo os papeis destinados a cada elemento. O pai é o provedor da casa, aquele que garante a subsistência da família, e seu espaço é público (o trabalho e a política). A mulher, ‘protegida’ pelo homem, desempenha o papel biológico que lhe é destinado e fica confinada ao lar.

A consequência disso é a chamada dupla moral, isto é, a existência de uma moral para a mulher e outra para o homem.

Para que a mulher possa desempenhar seu papel de mãe, a educação da menina é orientada como se ela fosse um ser assexuado. Sua vida sexual deve começar apenas no casamento e, muitas vezes, sem os ‘prazeres da luxúria’. A virgindade é valorizada, o adultério punido (até pouco tempo, inclusive no código penal) e sempre se aceitou com naturalidade as justificativas de ‘matar para lavar a honra’.

Por outro lado, a educação do menino é bem diversa, orientada mesmo para uma vida sexual precoce.”

Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires

Livro: Filosofando: Introdução à filosofia (Moderna, 1986) | Autoras: Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins | Página: 363

“A sexualidade humana não é simples expressão biológica: embora a atividade sexual seja comum aos animais e aos homens, apenas estes a transformam em atividade erótica. Pois só no homem ela é busca psicológica, independente do fim natural pela reprodução, e se traduz em infinita riqueza de formas que o espírito empresta à sexualidade. A ação erótica é a ocasião da expressão da alegria e da invenção.”

Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires

Livro: Filosofando: Introdução à filosofia (Moderna, 1986) | Autoras: Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins | Página: 360

“Dizem-se: esse gênero de amor não é viável. Mas como avaliar a viabilidade? Por que o que é viável é um Bem? Por que durar é melhor que inflamar?”

Roland Barthes em “Fragmentos de um discurso amoroso” 

Livro: Filosofando: Introdução à filosofia (Moderna, 1986) | Autoras: Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins | Página: 358

“Amar é estender o seu corpo em direção a um outro corpo; mas é também, mais fundamentalmente, exigir que esse corpo, que ele deseja, também se estenda; é desejar o desejo do outro.”

Hegel

Livro: Filosofando: Introdução à filosofia (Moderna, 1986) | Autoras: Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins | Página: 354

“A sexualidade é parte integrante do nosso ser total. Ela não é apenas expressão do corpo biológico, não é apenas resultado do funcionamento glandular. Ela é a expressão do ser que deseja, que escolhe, que ama, que se comunica com o mundo e com o outro. Ela é uma ‘linguagem’ que será tanto mais humana quanto mais pessoal for.”

Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires

Livro: Filosofando: Introdução à filosofia (Moderna, 1986) | Autoras: Maria Lúcia de Arruda Aranha e Maria Helena Pires Martins | Página: 348

“O erotismo constitui um problema controvertido e sempre o será, (…). Por um lado, pertence à natureza primitiva e animal do homem e existirá enquanto o homem tiver um corpo animal. Por outro lado, está ligado às mais altas formas do espírito. Só floresce quando espírito e instinto estão em perfeita harmonia. Faltando-lhe um dos dois aspectos, já se produz um dano ou, pelo menos, um desequilíbrio, devido a unilateralidade, podendo resvalar facilmente para o doentio. (…) Este dilema mostra toda a insegurança que o erotismo traz ao homem.”

C. G. Jung   

Livro: Psicologia do Inconsciente (Ed. Vozes, 1987 – 1ª Edição 1916) | Autor: C. G. Jung | Página: 20