“De todos os pontos da capitania o Tijuco era o que entretinha relações mais imediatas, não só com a metrópole, (…), como com outros países da Europa, (…). Destas relações resultou que nós fomos dos primeiros conhecedores, e os mais ardentes entusiastas da grande agitação política e moral, por que passava a Europa no século XVIII. Nossa pequena sociedade neste canto do mundo também logo se animou com o mesmo espírito de filosofia dos enciclopedistas; seus livros eram procurados com sofreguidão, e suas ideias de liberdade aceitas com tanto mais predileção, quanto mais tínhamos necessidade de vê-las realizadas.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 168

“A conspiração malograda de Minas, em 1789, foi um dos resultados das novas ideias em circulação. Os Estados Unidos da América haviam dado o primeiro exemplo de independência, e as demais colônias americanas agitavam-se com o espírito revolucionário. Não foi só o amor da independência, com o fim de sacudir o jugo da metrópole, o que animava os conjurados mineiros; foi, e principalmente, o ódio á monarquia, que tanto se havia desacreditado pelo egoísmo e tirania. Libertas quae sera tamem: tal seria a divisa da bandeira arvorada pelos conjurados. Daí provém o anátema injusto lançado contra seus heróis pela hipocrisia dos heliosistas modernos. Abafada a conspiração em seu princípio, o despotismo ainda teve seu dia de glória; mas os princípios não se perderam, pelo contrário ainda mais se fortificaram com a resistência, que encontraram na forma material.

O modo rápido e imprevisto, por que se abafou a conspiração mineira, não deu tempo para conhecer-se com exatidão a sua magnitude e a força com que poderia contar; é certo, porém, que tinha raízes em todos os pontos da capitania, e mesmo fora dela.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 168

“As ideias dos enciclopedistas com rapidez propagaram-se por todo o mundo, pela facilidade da língua francesa; o Espírito das Leis e o Contrato Social constituíam o código da ciência política. No Brasil, apesar da proibição, ou talvez por causa dela, que excitava a curiosidade pública, eram essas obras introduzidas como contrabando, lidas com avidez; e assim nós também participávamos do influxo benéfico da grande revolução moral, que se realizava na Europa.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 168

🔖 Leia outra frase sobre a curiosidade provocada pela proibição de livros:

“Houve exageração nas ideias e na vingança; mas o povo tinha sofrido tanto! Quem não desculpará os excessos de alguns anos em represália a séculos de sofrimento?”

Joaquim Felício dos Santos sobre a Revolução Francesa

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 168

“Depois de nós, o fim do mundo; nossos sucessores terão de lutar com grandes embaraços.”

Luís XV, Rei da França

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 168

“Tudo o que vejo indica uma revolução, que sucederá infalivelmente, e da qual não terei o prazer de ser testemunha. A ciência se acha disseminada de tal forma, que na primeira ocasião haverá uma explosão. Felizes os jovens! Que coisas eles verão no futuro!”

Voltaire, 1762

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 168

“Julgo impossível que as grandes monarquias ainda subsistam por muito tempo. Tenho razões particulares para assim pensar, mas nem tudo convém dizer-se; demais todos sabem disto.”

Rousseau, 1760

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 167

“Ninguém ignora o estado da velha sociedade europeia no século XVIII, combatida pelas doutrinas enciclopédicas, pela ciência, pela razão, pelos interesses e paixões populares. O mundo ia tomar uma nova face; todas as ideias, todas as instituições iam ser mudadas, e a França era o centro dessa imensa revolução. A filosofia tinha arvorado o seu estandarte contra o passado. Os princípios da igualdade dos homens, da soberania popular foram reconhecidas como dogmas incontestáveis: nobreza significou usurpação; sacerdócio, impostura; religião, prejuízo de educação: era o que se chamava filosofia.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 167

“Dir-se-ia um exército que marchava certo à vitória, ou que enviado pela Providência ia libertar a pátria ameaçada por bárbaros inimigos. Entretanto esse exército marchava para matar nossos irmãos, pobres párias do tempo, muitos dos quais levados à miséria, vítimas do despotismo dos mandões da metrópole, (…).”

Joaquim Felício dos Santos sobre o exército de mais de 200 soldados e 2 pesados canhões de grosso calibre, que em janeiro de 1782 chegou no Tijuco para combater os garimpeiros

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 150

“Por esta razão foi aqui proibido o exercício da advocacia. O alvará citado diz: ‘Sou servido prohibir que dentro do districto das terras diamantinas possa residir bacharel algum formado, debaixo das penas de ser remetido á sua custa ao Rio de Janeiro e de seis mezes de cadêa debaixo de chave nas prisões d´aquella Relação. Excluo porém os que forem naturaes das referidas terras, com tanto que n´ellas não exercitem a advocacia, porque exercitando-a incorrerão nas sobreditas penas’.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 135

🔖 Leia outra citação que aborda o mesmo tema:

“Foi esta uma invenção bem engenhosa, digna de gênio e inspiração do despotismo: um filho podia denunciar o pai, um irmão o irmão, um amigo o amigo, um escravo o senhor, depois receber o prêmio da denúncia e ficar desconhecido o nome do denunciante!”

Joaquim Felício dos Santos sobre o clima de espionagem e denúncias em Diamantina

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 134

“A lei de 3 de agosto de 1770, que regularizou os morgados em Portugal, (…) reconhece os inconvenientes dos morgados, como contrários à natureza do direito de propriedade, criando uma classe de bens sem verdadeiro proprietário, que deles possa dispor livremente; contrário à justiça e à equidade, lançando muitas vezes na miséria a maior parte dos filhos do mesmo pai, para dar ao primogênito o patrimônio da família, (…). A lei reconheceu estes inconvenientes, mas deixou os morgados subsistindo, como necessários, diz ela, nos governos monárquicos para o estabelecimento e conservação da nobreza, para que haja nobres, que possam com decência servir ao Rei e ao Reino, tanto na paz como na guerra. Isto é, sacrifiquem-se muito embora os interesses das outras classes, mas não se deslustre a da nobreza! É como então se legislava.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 128 | No morgado, os bens das famílias não podiam ser doados, divididos ou vendidos aos herdeiros, que ficavam em posse do filho mais velho, mantendo a concentração de terras, riquezas e consequentemente poder.

“É natural no homem querer deixar depois de sua morte um monumento, uma lembrança de sua existência, de sua passagem rápida sobre a terra; será uma vaidade, uma parvoíce, um desejo sem fundamento: para que serve a glória de além-túmulo? Mas é da natureza humana.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 127 | Parvoíce: idiotice

“Havia então alguns jovens brasileiros, entusiastas das ideias de liberdade, que só esperavam um chefe ou um sinal para se declararem em revolta contra o jugo da metrópole, como faziam então os anglo-americanos, certos de que o primeiro grito de emancipação seria repercutido por todo o Brasil.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 127

“Por este tempo a América Inglesa dava começo às guerras de sua independência; o espírito de liberdade, como um eflúvio elétrico, fazia estremecer todos os povos americanos. Já se falava em despotismos, tirania, independência, liberdade, direitos dos povos – palavras antes desconhecidas. Alguns escritos dos filósofos e livres pensadores da França, como objeto de contrabando, tinham-se introduzido entre nós e começávamos a sentir o peso do jugo metropolitano: a isto a Corte denominava contágio revolucionário, e a Inquisição, em sua linguagem mística, lepra hebraica.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Páginas: 125 a 126

🔖 Leia outras citações que abordam o mesmo tema:

“Esta ordem de Nossa Senhora do Carmo é bem singular: nela só entram pessoas de cor branca, os negros e mulatos são excluídos. Nada é mais odioso e repugnante que a distinção de classes em uma religião, que nivelou todas as condições. Por certo não foi no Evangelho que os carmelitas encontraram o fundamento desta distinção. Assim são muitas coisas contra o verdadeiro espírito da religião cristã (…).”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 125

“Os habitantes da Demarcação Diamantina formavam como uma só família, regida por leis especiais e governada despoticamente por autoridades particulares. Vivíamos como se estivéssemos em um eterno bloqueio, isolados do resto da colônia, sendo-nos interdita toda a comunicação com os povos de fora. Ninguém podia julgar-se seguro em sua casa. O senhor via com desconfiança no escravo um inimigo oculto que denunciando-o obtinha a liberdade e partilhava seus bens com a Fazenda Real. A devassa geral, que se conservava sempre aberta, era como uma teia imensa, infernal, sustentada pelas delações misteriosas, que se urdia nas trevas, para envolver as vítimas, que muitas vezes faziam a calúnia, a vingança particular, o interesse e ambição dos agentes do fisco.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 109

“O povo dessa vila nos tempos antigos sempre se distinguiu por seu espírito de independência e amor à liberdade (…).”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 107

“Nas terras diamantinas o ouro se achava quase sempre de mistura com o diamante; há bem poucas lavras puramente auríferas, (…).”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 102

“A Capitania de Minas era sem contestação a que mais rendia para a Coroa; além do imposto da capitação do quinto, pagávamos ainda dízimos, direitos de entrada, de passagem de rios, donativos e direitos de ofícios, subsídios voluntários e literários, extração de diamantes e outros muitos, não falando dos impostos indiretos cobrados nas alfândegas. Não convinha, pois à Coroa perder tão abundante manancial de riquezas.”

Joaquim Felício dos Santos

Livro: Memórias do Distrito Diamantino (Editora Itatiaia e Editora da Universidade de São Paulo, 1976 – Data da primeira publicação: 1868) | Autor: Joaquim Felício dos Santos | Página: 100