“É essa angústia que Kierkgaard chamava angústia de Abraão. Vocês conhecem a história: um anjo ordenou a Abraão que sacrificasse seu filho: está tudo certo se é, realmente, um anjo que veio e disse: ‘Você é Abraão e sacrificará seu filho’. Mas cada um pode se perguntar, antes de tudo: ‘É realmente um anjo e eu sou mesmo Abraão? O que é que me prova?’ Havia uma louca que tinha alucinações: alguém lhe falava por telefone e lhe dava ordens. O médico lhe perguntou: ‘Mas quem é que fala com você?’ Ela respondeu: ‘Ele diz que é Deus’. Mas que provas ela tinha, na verdade, de que era Deus? Se um anjo se aproxima de mim, que provas tenho eu de que é um anjo? E se ouço vozes, que provas tenho de que elas provêm do céu e não do inferno, ou do subconsciente, ou de um estado patológico? Que provas tenho de que se dirigem a mim? Quem me prova que eu fui, de fato, designado para impor minha concepção de homem e minha escolha para à humanidade? Eu jamais terei alguma prova disso, algum sinal pra me convencer. Se uma voz se dirige a mim, sou eu que terei que decidir que esta voz é a voz do anjo; se eu considero que determinado ato é bom, sou eu que escolho declará-lo bom e não mau. Nada me designa como sendo Abraão.”
Jean-Paul Sartre
Livro: O existencialismo é um humanismo (Vozes, 2014 / 5ª Reimpressão 2022 – Publicado originalmente em 1946) | Autor: Jean-Paul Sartre | Página: 22
🔖 Leia outra citação que segue a mesma lógica:
“Pois não pode ser o sujeito dessa proposição simbólica a menos que seja destinado a e compreendido como tal.”
Charles S. Peirce
🔖 Leia outra citação que fala sobre a passagem de Abraão:
“O primeiro livro da Bíblia, por exemplo, descreve como a desobediência à autoridade suprema fez com que Adão, Eva e o resto da humanidade perdessem o paraíso. Se essa metáfora específica se mostrar sutil demais, um pouco mais adiante no Antigo Testamento podemos ler (…) o relato reverente da disposição de Abraão de sacrificar o próprio filho porque Deus, sem nenhuma explicação, ordenou que assim fosse feito. Aprendemos com essa narrativa que uma ação era julgada correta não por aspectos como a sensatez, a nocividade, a injustiça ou os padrões morais usuais, mas pelo mero comando da autoridade superior.”
Robert B. Cialdini
