“Bilhões de mulheres se ocupam incansavelmente da tarefa de limpar o mundo. Sem o trabalho delas, milhões de empregados, de agentes do capital, do Estado, do Exército, das instituições culturais, artísticas e científicas não poderiam ocupar seus escritórios, comer em refeitórios, realizar reuniões, tomar decisões em espaços asseados onde lixeiras, mesas, cadeiras, poltronas, pisos, banheiros, restaurantes foram limpos e postos a sua disposição. Esse trabalho indispensável ao funcionamento de qualquer sociedade deve permanecer invisível. (…) Por um lado, esse trabalho é considerado parte daquilo que as mulheres devem fazer (sem reclamar) há séculos – o trabalho feminino de cuidar e limpar constitui um trabalho gratuito. Por outro lado, o capitalismo produz inevitavelmente trabalhos invisíveis e vida descartáveis. (…) Sobre essas vidas (…), repousam as vidas confortáveis das classes médias e do mundo dos poderosos.”
Françoise Vergès
Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Páginas: 24 e 25
