“Queremos pôr em prática um pensamento utópico entendido como energia e força de insurreição, como presença e como convite para sonhos emancipatórios, como gesto de ruptura: ousar pensar para além do que se apresenta como ‘natural’, ‘pragmático’, ‘razoável’. Não queremos construir uma comunicada utópica, mas restaurar toda a sua força criativa em sonhos de insubmissão e resistência, justiça e liberdade, felicidade e bondade, amizade e encantamento.”

Texto escrito coletivamente em junho de 2017 por cerca de 30 artistas e militantes.     

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 136

“Há toda uma humanidade se dedicando a fazer um trabalho invisível e superexplorado para criar um mundo adequado ao consumo e à vida institucional. Cabe a essas pessoas lidar com o sujo, o contaminado, a água não potável, o lixo que não é recolhido, os plásticos que invadem tudo, os jardins nos quais as plantas morrem por falta de manutenção, os esgotos que não funcionam, o ar poluído. As outras, então, podem desfrutar a cidade limpa, os jardins, as flores, os passeios tranquilos. A segregação do mundo se dá em uma divisão entre limpeza e sujeira baseada numa divisão racial do espaço urbano e da moradia.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 127

“O antropólogo David Graeber falou da necessidade de reimaginar a classe trabalhadora com base no que ele chama de classe cuidadora, a classe social cujo ‘trabalho consiste em cuidar de outros seres humanos, plantas e animais.’”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 125

“A análise do trabalho doméstico no âmbito da família deveria ser um ponto de partida para ‘revelar a extensão e a invisibilidade do trabalho reprodutivo privado e público na terra, sua gratuidade e o lucro que a economia do capitalismo obtém dele.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Páginas: 122 e 123

“Na França, o verão é um período propício à expressão do feminismo civilizatório e de suas fantasias racistas sobre o corpo das mulheres muçulmanas. No verão, ‘a mulher’ deve se despir porque é assim que ela mostra sua liberdade.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 111

“Essa pacificação do nosso passado militante contribui para nossa dominação no presente. De fato, o poder se serve dessa narrativa para ensinar lições a movimentos recentes. Os padrões de respeitabilidade são estabelecidos para reprimir a raiva e torná-la indigna.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 105

🔖 Leia outras citações que abordam o mesmo tema:

“Quando não é possível despolitizar militantes, elas são descritas como raivosas e masculinizadas, extremistas incontroláveis, mulheres indignas do marido (que, no entanto, pode se tornar um ícone), ou então são simplesmente condenadas a desaparecer.”

Françoise Vergès

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Páginas: 103 e 104

“Essa ideia de que o mundo se transformaria se mudássemos de mentalidade, se aprendêssemos a aceitar as diferenças, baseia-se em uma concepção idealista das relações sociais. Mas essa ideia é sedutora porque nos impede de agir em relação a essas estruturas.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 92

“O capitalismo não hesita em adotar o feminismo corporativo (aquele que exige que as pessoas se integrem a seu mundo) ou o discurso dos direitos das mulheres segundo o qual as desigualdades entre homens e mulheres são uma questão de mentalidade, de falta de educação, e não de estruturas opressivas. Não que a transformação de mentalidade e uma educação antirracista e antissexista sejam questões a se negligenciar, longe disso. No entanto, devemos chamar a atenção para a insistência em não se admitir que estamos falando de estruturas, que o capitalismo racial desmorona sem o racismo, e com ele um mundo inteiro construído sobre a invisibilização, a exploração e a expropriação.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Páginas: 91 e 92

“Mesmo com a diminuição gradual das desigualdades de gênero, vão surgindo novas formas de desigualdade entre as mulheres: por um lado, há mulheres com uma carreira interessante e bem remunerada, capazes de conciliar o modelo masculino de sucesso profissional com a vida familiar e as restrições domésticas; por outro lado, há aquelas que se ocupam de empregos precários, de trabalhos em tempo parcial involuntários, recebendo salários baixos, desprovidas de ajuda na esfera doméstica.”

Instituto Nacional de Estatística e de Estudos Econômicos da França (Insee)   

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 89

“A liberdade individual – vestir-se como eu quero (exceto usar o véu) – tornou-se símbolo das lutas da década de 1970; é obviamente um insulto às lutas das mulheres trabalhadoras, imigrantes, refugiadas políticas.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 85

“Nenhuma instituição me parece escapar ao racismo estrutural: nem a escola, nem o tribunal, nem a prisão, nem o hospital, nem o Exército, nem a arte, nem a cultura, nem a polícia.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Páginas: 62 e 63

“Reni Eddo-Lodge expressa um sentimento familiar e legítimo quando explica: ‘Poque não quero mais falar sobre raça com brancos”. Fingir que o debate sobre o racismo pode se dar como se as duas partes estivessem em condições de igualdade é ilusório, ela escreve, e não cabe àquelas e àqueles que nunca foram vítimas de racismo impor o formato da discussão.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 55

“Se vocês vieram para me ajudar, estão perdendo seu tempo. Mas se vieram porque a libertação de vocês está ligada à minha, então trabalhemos juntas.”

Lilla Watson (militante indígena australiana)   

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 46

🔖 Leia outras frases que expressam a mesma ideia:

“A colonização é um acontecimento/período, e o colonialismo é um processo/movimento, um movimento social total cuja perpetuação se explica pela persistência das formações sociais resultantes dessas sequencias.”

Peter Ekeh    

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 41

“Não devemos subestimar a velocidade com que o capital é capaz de absorver certas noções para transformá-las em palavras de ordem esvaziadas de seu conteúdo; (…).”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 41

🔖 Outra citação que aborda o mesmo tema:

“Eles contestam a economia-ideologia da falta, essa ideologia ocidental-patriarcal que transformou mulheres, negros/as, povos indígenas, povos da Ásia e da África em seres inferiores marcados pela ausência de razão, de beleza ou de um espírito naturalmente apto à descoberta científica e técnica. Essa ideologia forneceu o fundamento das políticas de desenvolvimento que, grosso modo, dizem: ‘Vocês são subdesenvolvidos, mas podem se tornar desenvolvidos, desde que adotem nossas tecnologias, nossos modos de resolver os problemas sociais e econômicos. Vocês devem imitar nossas democracias, o melhor dos sistemas, pois não sabem o que é liberdade, respeito pelas leis, separação de poderes’.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 39 | Contexto: missão civilizatória

“Este mundo europeu nunca conseguiu ser hegemônico, mas ele se apropriou, sem hesitar e sem se envergonhar, de saberes, estéticas, técnicas e filosofias de povos que ele subjugava e cuja civilização ele negava. Nosso combate se posiciona claramente contra a política do roubo justificado, legitimado e praticado sob os auspícios ainda vivos de uma missão civilizatória.”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Página: 39 | Missão civilizatória: prática de dominação aplicada sobre colônias. Ex.: Catequização dos Índios.

“Na sequência do que escreveu Frantz Fanon, ‘A Europa é literalmente uma criação do Terceiro Mundo’, pois foi construída sobre o roubo das riquezas do mundo e, portanto, ‘a riqueza dos países imperialistas é também nossa riqueza’, (…).”

Françoise Vergès  

Livro: Um feminismo decolonial (Editora UBU, 2020) | Autor: Françoise Vergès | Páginas: 33 e 34