“Pois, como poder existir é potência, segue que quanto mais realidade cabe à natureza de alguma coisa, tanto mais forças tem de si para existir; por isso o Ente absolutamente infinito, ou seja, Deus, tem de si potência de existir absolutamente infinita, e por causa disso ele existe absolutamente. Todavia muitos talvez não possam ver facilmente a evidência desta demonstração, já que estão acostumados a contemplar somente as coisas que fluem de causas externas; dentre elas, veem as que são feitas rápido, isto é, que existem facilmente e também perecem facilmente; ao contrário, julgam coisas mais difíceis de ser feitas, isto é, não tão fáceis de existir, aquelas às quais concebem pertencer muita coisa. Na verdade, para liberá-los destes prejuízos, não me dou o trabalho de mostrar aqui por que razão o enunciado o que é feito rápido, rápido perece é verdadeiro, (…). Mas basta notar apenas que não falo aqui de coisas feitas por causas externas, mas só de substâncias, que (…) não podem ser produzidas por nenhuma causa externa. Com efeito, coisas feitas de causas externas, (…) o que quer que tenham de perfeição, ou seja, realidade, deve-se totalmente à força de causa externa, e por isso a existência delas provém da só perfeição da causa externa e não da perfeição delas. Ao contrário, o que quer que a substância tenha de perfeição não se deve a nenhuma causa externa; por isso, também de sua natureza deve seguir sua existência, a qual, por conseguinte, não é dada mais que sua essência. A perfeição, portanto, não tira a existência da coisa, mas ao contrário a põe; a imperfeição, ao invés, tira-a, e por isso não podemos estar mais certos da existência de nenhuma coisa que da existência do Ente absolutamente infinito ou perfeito, isto é, Deus. Pois, visto que sua essência exclui toda imperfeição e envolve absoluta perfeição, por isto mesmo suprime toda causa de duvidar de sua existência, e dela dá a suma certeza, o que creio, será claro a quem prestar um pouco de atenção.”
Benedictus de Spinoza
Livro: Ética – Spinoza (Editora da Universidade de São Paulo, 2021 – Publicado originalmente em 1677) | Autor: Benedictus de Spinoza | Página: 63